Yvette Depaepe
Foto: Yvette Depaepe

A meio da viagem que repete todas as manhãs entre Estocolmo e Uppsala, Arthur Ekelöf precisou de fazer um desvio. Estacionou o Volvo de última geração na entrada de um parque de merendas, desligou o telemóvel e todos os outros dispositivos eletrónicos anichados na pasta, saiu do automóvel, subiu as golas do sobretudo e sentou-se.

Foi a primeira vez em quase duas décadas.

A cabeça, repleta de sons e de imagens, nada pôde ver ou escutar durante muitos minutos. A impressão de que o coração batia mais depressa e de que os olhos nada descortinavam com nitidez (como se uma película suja os embaciasse) assustou-o. Era como se presa às solas dos sapatos viesse uma outra vida, parasitária, de que supunha não ser já capaz de separar-se.

Gritou. Gritou outra vez. Gritou com raiva.

– Então, é isto a minha vida?

O sangue acorreu-lhe ao rosto, as mãos mudaram de cor.

Depois, Arthur começou a ouvir pequenos sons ao perto e ao longe, por exemplo a revoada de gralhas que ia e vinha doidamente quando gritava. Notou, também, as diferentes entoações dos ramos dos pinheiros empurrados pelo vento. E o despenhar-se de quando em vez de uma pinha.

Sentiu-se limpar. Era como os pulmões abertos deixassem respirar a sua alma. Como se a alma lhe dilatasse no tronco amarfanhado. Como se o tronco retorcido se endireitasse.

O tempo. Quanto tempo? Aqui, sentado num banco de madeira, neste parque vazio?

Só a aceleração e a travagem dos camiões, além, lhe recordava a irreverência inusitada desse dia. Não precisou de lutar sequer contra a sensação de remorso ou contra qualquer mal-estar provocado pela falta ao emprego. Os seus alunos teriam de contentar-se com uma explicação. Os seus alunos? Que se lixassem os seus alunos!

– Quarenta anos, porra! Tenho quarenta anos! E sinto-me tão perdido quanto um barco de pesca em alto mar, longe de todos os ancoradouros. Estou perdido, porra!

A fome e o cansaço instalaram-se. E também uma tristeza enorme, indisfarçada, sem consolação. Sozinho, entre a caruma seca e a bolsa de silêncio que o envolvia, Arthur sentiu as cócegas do nariz ultrapassá-lo. Teve a certeza de que não saberia dominar-se. E de feito lançou-se num choro violento, sem freio, alavancando obscuras frustrações, misérias, sentimentos de dor, cinza calcada e esquecida. Chorou como uma criança magoada, traída, exposta.

Uma comiseração tão profunda era-lhe estranha. Depois de chorar, o professor de Filosofia ficou em silêncio. Um silêncio total, de pássaro ferido nas asas. O céu foi-se despojando lentamente da energia solar, mergulhando numa paz de outono inteiramente nova, como se cada elemento tivesse reaprendido a ocupar com sobriedade o seu lugar.

Arthur ergueu-se.

O corpo, entorpecido, vacilou. Pôs-se a contemplar a paisagem ao redor. Viu um casebre ao longe, no cimo de uma colina, sob nuvens de um tom violeta. Viu os debruns azul ferrete de um lago. Viu embarcações atravessando serenamente o tapete da água, onde o vento compunha e descompunha rugas de um alarme poético, até aí nunca pressentido. A sua existência, passada nas grandes cidades, alheia a esse bucolismo tão belo e tão intemporal, pareceu-lhe estúpida, opressiva, hostil.

Sorriu com escárnio. Como podia ter-se enganado tanto acerca de tudo?

Abriu a porta do carro como quem abre com desprezo um caixão. A morte estava ali, à espera de o levar de volta. Pronta, seguramente, para lhe gritar, ameaçar, punir. Sabe Deus o rancor que se teria acumulado desde o meio da manhã no seu correio eletrónico, no seu correio de voz, em mensagens de espanto, desespero e deceção através das redes sociais!

O que lhe diriam? Como se justificaria ele? Teria coragem para dizer simplesmente «Tirei o dia por conta da minha vida»?

Arthur sorria. Já não com troça de si mesmo, mas com orgulho. Desobedecera a si mesmo, em defesa de si próprio. Tinha a absoluta certeza de que o Volvo o não apanharia em falso.

Reentrou na autoestrada, iluminada agora por centenas de faróis alinhados e sequenciais.

Tinha a absoluta certeza de que iria reencontrar-se algures.

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