Holger Droste
Foto: Holger Droste

 

A primeira impressão, como a música de Rachmaninoff, é desagradável. O vento fustiga a varanda, as rulotes, o areal, o espelho da água.

Por sua culpa, a ondulação enche-se de uma tonalidade verde-azeitona, entrecortada pelo alvacento da espuma. Por sua culpa, há plásticos a voar, mulheres arrepiadas no limiar das lojas, poetas cismando na extremidade dos pontões. Por sua culpa, as palmeiras chicoteiam desgovernadas a avenida e são escassas as embarcações no alto mar, pese o arco generoso das velas que se alcançam muito ao longe, de dentro da vidraça.

A tarde é de final de agosto, fria e, por culpa do vento, ruidosa também. Pelas partes da casa não completamente soldadas entre si há um assobio constante e sinistro, especialmente estando ela hoje tão vazia de gente e de vozes.

Aos poucos o corpo habitua-se e à medida que se acostuma o corpo ao espaço também o pensamento se aquieta. Os sons concertam-se. A roupa que baloiça no estendal e os tacões que a vizinha em cima faz martelar no soalho são engolidos pelo staccato do piano. A pele defende-se dos contrastes térmicos do sol e da aragem na sombra limpa do escritório. Há sobre a mesa um livro, com um marcador de cartão assinalando o ponto onde a leitura ficou interrompida: é um tratado de Arcanus. Ao folheá-lo sente-se o perfume do papel avançar pela casa, penetrar o silêncio, acoitar-se nos poros da madeira e nas profundezas do rinencéfalo.

«O tempo é eminentemente repetitivo. Não há nas nossas vidas um único dia que não seja em tudo semelhante a outro dia vivido por outro homem numa outra era.»

A exatidão dos movimentos dentro de casa reflete um estado de espírito próximo da perfeição. Mas uma dúvida tornou-se agora dolorosa. Terão as impressões colhidas durante a tarde, a agrura do vento, o perfume dos agapantos misturado com o cheiro do iodo do mar, a cadenza do concerto para piano, a paz enxuta e calafetada do escritório sido meras ilusões? Ou vulgares repetições de um instante original mais veemente e puro? Réplicas do que outras almas já sentiram? Ecos rarefeitos de um Éden de outrora?

O homem acende um charuto. Forma com o fumo um círculo que faz evolar pela janela aberta, ir em direção ao nada. Enerva-o a incerteza. O prazer de cada gesto é ambíguo. Não sabe se é reencarnação de outro ser, ou a sua própria reencarnação, ou se existe sequer. Não sabe se é prazer ou se é dor o que lhe congestiona a cabeça. Ou se no âmago da sua pessoa possui alguma coisa que possa provar-se como tangível. Quase lhe apeteceu queimar-se com o lume do isqueiro. Abandona-se por fim, como a música de Rachmaninoff, a um silêncio gigante, simétrico do som.

O vento fustiga a varanda, escuta-se no ar o fino e inquebrável chicote da matéria em convulsão. Um assobio goteja por dentro e por fora do tempo e do espaço. O homem sente-se nu. Nenhuma lógica o acompanha.

Apúlia, 15 de agosto de 2017

 

 

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