Antonio Grambone
Foto: Antonio Grambone

 

«O tempo é simples, mas meticuloso» costuma dizer o relojoeiro Carlo Ambrozini, o último em atividade em toda a província de Cantazaro.

Se o netinho, um travesso, lhe vem à puridade sonegar uma mola, um pistão, um linguete, uma minúscula roda dentada, um ponteiro irrisório, introduzindo-os sorrateiro nos bolsos do calção, o jovial relojoeiro mostra-se intransigente:

– Põe aqui o que tiraste. O detalhe é o segredo de tudo, meu filho. O mínimo deslize compromete o andamento da máquina…

A bancada de Carlo Ambrozini é um caos de rodízios, argolas, correntes, pesos, alicates, almotolias, foles e vidros empilhados, relíquias ferrugentas a que acredita poder ainda restituir a vida. Agora, por exemplo, com o óculo posto e uma paciência olímpica, experimenta o mecanismo pendular de um maravilhoso Alois Mayer Schönemback. Algo está a atrasar o vaivém do pendente metálico e a caixa de música, que deveria reproduzir o toque de Westminster, emudeceu e recusa-se a repeti-lo, como fez durante muitos anos.

– Às vezes é assim, meu filho… – começa, com o sobrolho levantado e acariciando interrogativamente uma série de ganchos – demoramos  dar com o imbróglio. Mas lá está, meu filho. Ele está sempre lá, à espera que demos com ele…

Apúlia, 7 de agosto de 2017

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