Victoria Ivanova
Foto: Victoria Ivanova

 

Em cima da mesa estava a velha questão. De tempos a tempos a velha questão regressava. Os membros do Conselho tinham de a votar outra vez. Era um exercício complexo, apesar de a questão propriamente dita exigir apenas uma de duas respostas: SIM ou NÃO.

Alguns conselheiros, mais antigos, arengaram. Ao longo da sua carreira tinham já votado uma coisa e o seu contrário. Mas de tempos a tempos era preciso ressuscitar o problema, tal como se faz com um sonho mal resolvido.

Em cada cabeça sopesou-se os prós e os contras. A maior parte não sabia bem o que preferir. Como o voo de um pêndulo, os argumentos pareciam igualmente razoáveis de um lado e do outro, e tanto no caminho de ida como no de volta. Razões tão lógicas e tão perfeitas, como as de que alguém se socorre para convencer outra pessoa a desdizer-se e a segui-lo apaixonadamente, foram aduzidas.

Sir Arthur R. MacEwen, líder histórico do Congresso, usou da palavra. Independentemente de como, era imperioso que se decidisse. A indecisão não podia mais prolongar-se no tempo. Cada cavalheiro com assento naquela sala tinha ali a prova da grande importância do seu juízo. Votasse-se.

A mesa tornou-se um murmúrio só. Votar-se-ia de mão no ar ou por voto secreto? O rosto de alguns conselheiros encheu-se de angústia. «Votar é um compromisso irremediável com o futuro, uma aposta» explicava o veterano Sutherland, dando palmadas nas pernas. Ninguém ali estava propriamente certo de nada, nem podia jurar que no final do escrutínio se não desfizessem alianças, se não apunhalassem amizades. Votar é quantas e quantas vezes a melhor forma de expressar o nosso pequeno potencial de doce hipocrisia. Quem pode antecipar as consequências de tão tenebrosa provação?

Votou-se. Dez votos para cada lado. Foi um alívio. Ao redor da mesa houve até um cumprimento discreto, que os olhos repetiam. Todos se voltaram, então, para o Presidente. Cabia-lhe a última palavra, o voto de qualidade, a decisão. Acontecesse o que acontecesse, agora era com ele!

O ancião, apoiando-se no castão da bengala, ergueu-se a custo, visivelmente desagradado.

SIM ou NÃO, Sir Arthur?

– Pois, por mim, nem uma coisa nem outra… Nem uma coisa, nem outra… – repetiu, colérico, enquanto (amparado pelo escrivão pessoal e sem se despedir) se fez retirar para o seu gabinete, bem no âmago do edifício principal.

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