Poet, reader, Alfredo Yañez
Foto: Alfredo Yañez

No quinto andar do prédio na extremidade da avenida dos grandes plátanos vive o poeta. É um prédio antigo, sem elevador. Sempre que ao chegar a casa mete a chave na fechadura, o poeta lamenta a sua sorte, sobretudo, se tem de carregar sacos de compras ou uma bilha de gás. É uma lástima não se ter nascido rico.

Quando na rua os ruídos começam a diminuir, o poeta põe-se a fantasiar. Para que os seus sonhos pareçam um pouco mais sérios e um pouco menos irrealizáveis, gosta de ouvir música. «Boa música» é para ele uma sonata de Buxtehude, um concerto de Mozart ou um noturno de Chopin. Às vezes, aventura-se pelo jazz, mas sente-se sempre um pouco engolido pela prolixidade e pelo frenesim incompreensível dos instrumentos. Muitas vezes, sobretudo, de madrugada, põe-se a caminhar descalço e de olhos fechados pela casa. É quando lhe ocorrem as melhores palavras.

Na noite em que escrevemos estas linhas, o poeta deixou-nos aberto em cima da mesa da cozinha um caderno. Sobre a folha da esquerda permanece uma garrafa esvaziada em modo de pisa-papéis, na da direita está o pedaço de texto que reproduzimos a seguir:

 

há versos a estalar de luz, como sinapses,
na minha cabeça

 

o que é a perfeição? um voo?

 

Celan, Pavese, Crevel, Bjørneboe, Sylvia Plath, 
tantos outros,
eles escreveram instantes perduráveis
que o lápis sublinhou e a boca vai repetindo

 

Depois é uma nuvem de rasuras, cruzes e pontos de exclamação. O texto admite dúvidas de toda a espécie, pois o poeta justapõe palavras e não parece satisfeito com nenhuma delas: por exemplo, «estorninho», «felosa» e «cerrezina» pulam alternadamente na sua «relva», que é também «telhado», «janela» e «varanda». A palavra «universo» foi escrita no lugar de «cosmos» e «cosmos» reposta no lugar da palavra «universo». Há manchas de cinza do cigarro no papel e círculos pegajosos deixados pelo uísque. Dois traços oblíquos cruzam-se de alto e a baixo. Nenhum título foi anotado. Não podemos afirmar que o poema não esteja concluído.

O poeta foi visto à varanda antes do nascer do sol pelo carro da polícia que fazia a ronda. Quando os vizinhos começaram a sair para o trabalho, viram-no, também, caído (miraculosamente sem danos maiores) no passeio ao lado do coletor do lixo. 

Foi, então, levado para um hospital do centro da cidade. Por causa da ingestão de álcool não sabe ainda que está vivo, nem o que seja a perfeição.

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