Foto: Gyula Halász
Foto: Gyula Halász

Esgotado, sem ideias, alarmado pelo segundo divórcio, incapaz de uma frase que soasse genuinamente como sua, Peri Fontara, Rubio Peri Fontara, pôs-se a examinar a língua serena da chama que fazia um coto de vela. Do pavio crescia um ténue azul, que era um pouco acima e um pouco mais para dentro, como noutro estrato, um tom indeciso de azul ferrete e cinzento, cedendo lugar, na cabeça ondulante, a um rebrilho de amarelo vivo e, por fim, como a recortá-lo, outra vez o misto de gris e negro.

Peri Fontara olhava fixamente esta emanação, que lhe acendia nos olhos um pensamento doido, uma vontade de agir, um impulso de violência. Era como se o pequeno fogo, por reverberação, por extensão, por contágio, fizesse deflagrar outro fogo noutro tempo, esquecido, emergindo, aflorando agora, aos poucos, à matéria palpável e irreparável de um ato.

O que sucedeu a seguir a estas inócuas palavras pode ser imaginado assim: Fontara enconchou a mão sobre a erva ígnea que lhe bailava na penumbra do quarto. Berrou naturalmente de dor. Depois, acordado da hipnose, arremessou a candela e o pequeno lume contra as paredes, que lhos devolveram. Houve um acaso. A vela lambeu de imediato papéis empilhados, cadernos, livros, o crepe das cortinas, o entulho da roupa. Diz quem viu que a noite, vista assim, com o braseiro inesperado saindo das janelas, parecia mais encantadora, convocando as estrelas e o clamor da multidão.

O escritor foi conduzido à ala psiquiátrica de um hospital de Montevideu. Entretanto, a partir das cinzas, os peritos puderam avaliar, por estimativa, os danos totais causados por este incidente. A partir delas consegue sempre avaliar-se este tipo de coisas.

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