Foto: Peter Davidson
Foto: Peter Davidson

 

Mesmo à sua frente o pintor tem o cavalete e apoiada nele uma tela de razoáveis proporções imaculadamente branca. O pintor está sentado. Os olhos estão fixos no vazio e as mãos quietas.

Ao lado, sobre a única mesa do ateliê, repousa um sem-número de espátulas, godés, frascos de resina e diluentes, aerossóis, pincéis, pedaços de madeira, palhetas, um boneco de madeira, jornais chapiscados.

O pintor colocou lado a lado, em montículos de pó colorido, todos os pigmentos de que se serviu ao longo da vida: chumbo branco, barite, gesso, cré, óxido de ferro, carvão vegetal, lápis-lazúli, composto de cobalto, azurite, malaquite, viridian, verde de crómio, verdete, açafrão, limonite, pó de ouro, ouro-pimenta, amarelo de nápoles, antimoniato de chumbo, ocre, carmim, vermelho-cinábrio, hematite, vermelho de cádmio, castanho-siena, úmbria, betume. É uma imagem alegre, como a que sentimos num bazar de Marrocos.

O pintor sente a cabeça fervilhar. Aos oitenta anos os olhos fraquejam, mas a visão é nítida, saturada de contrastes, relevo e pormenores. Fascinado, contempla a tela em branco. É um instante genesíaco. Tudo é ainda possível. Assim que lhe atravessar a primeira pincelada rebaixá-la-á à condição humana.

As imagens ocorrem-lhe vertiginosas, como aceleradas no disco de um caleidoscópio. Cada uma delas é simultânea e parte de todas as outras.

O pintor está agora deitado num parque. Vê ao modo do suprematismo um líquen trepar pelo ramo de um ulmeiro e vê o baloiçar suave dos ramos e das pequenas folhas trémulas e iluminadas.

E vê num pontilhado cor de toranja o sol descer sobre as torres arabescas e vastas planícies de heliantos da Andaluzia.

E vê um a um, cubisticamente, os maravilhosos desenhos da Catedral de Charles, alumiando em certa manhã as entranhas da sua fé perdida.

E vê ao modo de Monet as varandas e cúpulas caiadas de Creta. E vê as colunas vermelhas do palácio de Cnossos.

E, surrealista, uma lua quase azul por entre os pilares hieroglíficos de Luxor.

E vê como van Gogh os socalcos de arroz no Cambodja, os soldados de terracota do imperador Qin Shi Huang Di, e os jardins de Quioto, repletos de silêncio e de sombra.

E vê como Jackson Pollock o formigueiro frenético nas ruas de Tóquio.

Vê-se a si mesmo, jovem outra vez, amando a sua mulher num atol da Micronésia. Sério, meticuloso, absorvido pelo cromatismo de cada recordação, reconstitui como Gauguin as águas do Pacífico e a íris verde-azulada onde pela primeira vez descobriu o seu próprio rosto apaixonado.

E, numa quinta do sertão brasileiro, sobre uma toalha de linho, vê em chiaroscuro o brilho de uma jarra de cobre entre orquídeas e frutos tropicais. Não a mostrariam de outro modo os mestres italianos da renascença.

E vê no alto de uma montanha no deserto do Atacama a linguagem colossal do universo, com as suas cifras inumeráveis de constelações e poeira sideral. Se fosse Kandinsky esse seria o seu quadro.

E vê, num banco de jardim do Central Park, uma mulher índia com o traje ancestral dos Sioux contemplando as nuvens alaranjadas que cobrem Manhattan e lhe parecem as nuvens ao crepúsculo da sua cidadezinha nas margens do Missouri. Vieira da Silva amaria esse retrato.

O pintor vê com apreciável precisão a turba fuliginosa que sai das entranhas de uma mina de carvão no Botswana. Vê os vincos e sulcos profundos no rosto dos jovens negros e o complexo aracnídeo das máquinas (tapetes rolantes, engrenagens e braços basculantes) que tornam mais árida a paisagem. E vê as grandes fossas abertas na rocha escalavrada e o nome da companhia multinacional no topo de um dos abismos. Um dos operários leva ambas as mãos à boca para impedir-se de tossir. O pintor vê como a terra esquálida lhe absorve a expetoração sanguinolenta e como ninguém ao redor parece importar-se. Assim é o preço da vida humana. Edvard Munch, Frida Kahlo e Jean-Michel Basquiat mostrá-lo-iam de modos tão distintos quanto inesquecíveis.

E vê um oásis no Magreb, com as suas palmeiras e sicómoros e uma cáfila sequiosa deslizando nas dunas avermelhadas. E vê o Estreito de Messina, as Colunas de Hércules e a costa irregular da Cantábria com a sua linha de imponentes faróis. O pintor vê agora o verde puro da Irlanda, os castelos arruinados da Escócia, os grandes albatrozes sulcando as vagas e temporais do Atlântico. E vê no amplo horizonte do oceano o movimento sincronizado e argênteo de todo um cardume de sardinhas, e a respiração veemente de uma baleia azul na Gronelândia, e as pequenas traineiras dos portugueses. Caspar David Friedrich e William Turner veriam nestas paisagens o supremo heroísmo da solidão.

O pintor vê agora a sua infância. Como pintado ele próprio por Joaquín Sorolla, está a brincar no areal de uma praia quase deserta. Há limos e sargaço, búzios e salsugem. Nas mãos alvas e enregeladas segura o corpo ainda vivo de um peixe palhaço dada à costa. Um prodígio de cor e de correntes marítimas. Nesse dia, soube que seria esse o seu destino: colorir o vazio.

Aos oitenta anos viveu talvez tudo. Na tela vazia vê, não sabe se ao gosto clássico, alegórico, romântico, pré-rafaelita, impressionista, expressionista, surrealista, dadaísta, concetualista, neoconcetualista, neo-expressionista, as formas iluminadas e umbrosas da sua própria alma e da alma de todos.

A melhor das galerias está disposta a pagar-lhe uma fortuna por um quadro original, pelo trabalho de uma vida, pela sua magnum opus.

Como ser original?

O cavalete permanece imóvel, a tela intocada. Sem se mexer, de olhos fechados, o pintor atinge todas as cores, formas e texturas inominadas. Sabe que o primeiro gesto comprometerá para sempre a sua visão. Em branco, a tela é todo o seu génio magnífico, intraduzível e divino. Assim a entregará.

Hão de pagar-lhe milhões por ela.

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