Foto: Dhruv
Foto: Dhruv

Antes de sair de casa, olhou com intenção para cada canto do escritório. Empurrou, para os sentir, os dedos sobre a linha angulosa dos móveis. Tocou a chave da escrivaninha, os rebordos floreados da ranhura. Pareceu-lhe de uma beleza bruta e inútil a sua caneta de sempre, o tinteiro e porta-papel. Que mãos tomariam agora o sinete do lacre? Que significado teria daí a uns tempos o antigo monograma? Dentro das gavetas, se as abrisse nesse instante, encontraria já acamados e históricos o velho isqueiro de ouro, o relógio de bolso, os seus cadernos forrados a couro. Dentro do silêncio, cheirá-las-ias, se quisesse, as cartas recebidas, os ecos e respostas de toda uma vida. Em vez disso, empurrou os reposteiros e abriu o janelão. A luz e o cheiro das centáureas entraram. Reluziram as lombadas dos incontáveis livros que leu e anotou. Faiscaram o pedúnculo metálico do lucivelo sobre o tampo da escrivaninha, as pegas douradas das gavetas, o cinzeiro de bronze. Era como se ao mesmo tempo aquela fosse a última e a primeira vez. Uma estranha paz agitava-se da larga carpete ao estuque imaculado. O escritor respirou tão fundo quanto pôde. Setenta anos naquela casa eram mais do que uma obra, mais do que uma biografia, mais do que o amor a uma família, mais do que a obediência a um destino. Assinou papéis, introduziu-os num envelope, fechou-o. Setenta anos naquela casa eram pertencer a um lugar. O que houvesse de ser não podia ele a partir de então emendá-lo, dissimulá-lo, atenuá-lo ou transformá-lo. Abandonar uma casa para morrer é quando o instante e a eternidade se misturam. O escritor sabia que cada coisa à volta do espaço era uma despedida. E, por isso, tudo se contorcia em labaredas dolorosas, mesmo que embuçado no mais belo e duro silêncio. «Nenhuma oportunidade é tão viva e tão crua como última» disse o escritor.

Levaram-no.

No sanatório viveu catorze dias. Pensou muito em quase tudo. No que algum dia teve algum significado. Nos dióspiros da quinta; na água de Evian (tão boa como a do Parnaso); nas gravidezes sucessivas da mulher, Excelentíssima Senhora D. Ester da Cunha Albuquerque e Sousa, de quem recebeu as comodidades deste mundo; nos desabafos de São João da Cruz; no menino gorducho – filho da criada – a quem ensinou a ler e a escrever; nos primeiros dias do Direito em Coimbra; no esquife onde depositaram o avô Romão (nunca esqueceria aquele expressão de morte do avô-herói, do explorador das áfricas, com Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens). Pensou nas centáureas e agapantos azuis com que a criada, a magnífica Rosalinda, lhe ornava o escritório. Pensou em bacalhau migado. Em fígado de porco com cebolada. No caldo do Minho. As mãos magníficas de Rosalinda. Os seios magníficos de Rosalinda. Pensou na tristeza de Rosalinda. Por ordem da Excelentíssima Senhora D. Ester da Cunha Albuquerque e Sousa, sua esposa, e dos excelentíssimos senhores seus herdeiros, precisou de afastar de sua casa a magnífica Rosalinda e o nédio rapaz, que amava como ele as musas e as mudas subtilezas da literatura. Pensou muito. Pensou em matar-se. Pensou até em Deus, o ancestral inimigo, a quem odiava mais que a todos e a quem, nessas duas semanas finais, lançava salpicos de saliva, entredentes, nos pesadelos. «Deus, o velho hipócrita, somos nós a ver-nos a um espelho limpo». O pensamento foi o último farrapo de vida que sobrou. Num derradeiro consílio de palavras, quando a lucidez se juntou ao corpo, pediu tabaco. Deram-lho. Morreu com o charuto entupindo-lhe a boca. Foi assim.

Levaram-no.

A urna era, como o desejado, de pedra limpa, granítica, sem dizeres. Nenhum símbolo religioso. No funeral compareceram, naturalmente, todos os grandes da terra e todos os grandes da literatura. Estranha mescla de poder! Os discursos foram breves. Nenhuma voz quis afoitar-se demasiadamente. Nenhuma pretendeu o protagonismo que só ao morto cabe nesse dia. Ao lado dos grandes desfilavam os não tão grandes e, ao lado destes, os humildes. A criada magnífica também acompanhava o cortejo. O filho de Rosalinda, a quem o escritor ensinou as fábulas de Esopo e de Fedro, também. Que olhos tão idênticos aos dos defunto, se ali o defunto os pudesse abrir! Os herdeiros, corvos enlutados até ao bico, desconheciam as coisas de Esopo («O mito mostra que…»). Nada entendiam sobre as coisas que o futuro haveria de tornar sublimes e belas. Só a poesia pode elevar a ouro a poeira deste mundo: e os herdeiros nada compreendiam de poeira, só de ouro. Recebiam, portanto, os pêsames e os passabéns e os abraços e os beijos dos outros corvos. E amparavam as mãos da Excelentíssima Senhora D. Ester da Cunha Albuquerque e Sousa, muito protegidas em pelica negra. E amparavam-lhe o véu. E o rancor que escondia, porque nunca em vida lhe erguera o escritor o devido monumento literário. E ela, viúva, matriarca, mulher despeitada, exigia que se terminasse a obra. Fizeram-no descer à terra. O último lugar ou o primeiro. Aí, guardado, selado e chumbado, que lhe importavam as más-línguas, o azedume, o ódio, a incompreensão. Que falassem, se quisessem. Em que pensaria o morto?

Levaram-no.

Entro agora em casa. Empurro, para os sentir, os dedos sobre a linha dos móveis. Toco a chave da escrivaninha, os rebordos floreados da ranhura. Parece-me de uma beleza veemente a caneta deslizando sobre as folhas, o cheiro da tinta, a harmonia das frases. A luz e o cheiro das centáureas entram. Abro as gavetas. Uma estranha paz agita-se da larga carpete ao estuque imaculado. Leio velhos cadernos encrespados, quase sem rasuras. Nunca soube dizer a palavra «pai». Não a pronunciava minha mãe, Rosalinda. Nunca o escritor ma ensinou. Todos os seus manuscritos começam com uma dedicatória: «Para ti, meu filho, que um dias hás de perceber!»

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