Jian Wang
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Quando entra na pensão e toma o seu duche diário, quando come a sua única refeição completa e se deita exausto, o rapaz tem a cabeça no melhor da vida. O melhor da vida não é servido em pacotes económicos, mas exageradamente, como nos sonhos da adolescência. O rapaz sorri para o seu próprio filme impoluto. No verão o ventinho noturno faz os olhos duplicar de peso. É bastante agradável estar deitado ao comprido e respirar fundo. Lá, nas obras, quando todos chamam «Ayo» é o agora que se volta. Mas se é a rapariga loira que o faz, então o pescoço roda na direção do futuro.
 
Todos os meses, no dia do salário, paga a renda e tira uma parte para as poupanças. A Nigéria é um país distante. Nada percebe de devaneios ou futuros sonhados. A rapariga, Dayane, é tão bela que as entranhas de Ayo se revoltam às vezes ao vê-la. Mal pôde ainda dirigir-lhe a palavra. Exceto à noite, em casa, no quartito da pensão. Aí, sim, todas as coisas que deviam já foram ditas ou pensadas. «Não há como conversar na nossa própria língua!» A rapariga é meiga e repleta de mesuras. Ele escolheu bem.
 
Quando está prestes a adormecer, Ayo já nada receia. Nem sequer o ter nascido estrangeiro e articular quase nenhum francês. A rapariga, que é professora, pode com o tempo ensiná-lo. E ele, com o corpo cada vez mais imune à dor, há de protegê-la. Protegê-la com a sua própria vida, se preciso for. Como se diz em iorubá, «O amor é a única concha que o mar não esmigalha». Ayo já nada pensa ou imagina. Ele e a sua princesa branca estão atados ao mesmo destino por incontáveis fiozinhos de bisso. Ressona apenas. Todas as noites esta história acaba assim.
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