Foto: Sven Fennema
Foto: Sven Fennema

A cidade de Ölin, outrora um pequeno reino e enclave nos Cárpatos, oferece-se ainda hoje como caso único a nível mundial, pela quantidade de portentos que nela se produziram e produzem nas disciplinas de desporto sincronizado. Desde a mais tenra idade, os seus habitantes aprendem a ciência do comportamento síncrono, obedecendo a leis que herdaram e aperfeiçoaram dos antepassados, a tal ponto que um estrangeiro que entre pela grande Avenida Durine depressa se dará conta de algo só possível nos filmes muito ensaiados: a extrema graciosidade e artificialidade de todos os gestos. 

Quando Ölin era ainda eminentemente industrial (foi-o até ao final do período soviético), era costume assistir-se a coisas como estas: aos domingos de manhã, às oito horas em ponto, as janelas eram tomadas por mulheres laboriosas que vinham sacudir os tapetes, imitando-se umas às outras, de alto a baixo nos blocos de apartamentos de paredes de tijolo, de uma ponta a outra em todas as ruas, praças e travessas. O ruído provocado por este ritual era semelhante ao ribombar de fogo de artifício, assustando os pássaros e os gatos das imediações. Mas tão depressa se escutava esta explosão, como tão depressa o silêncio regressava, vendo-se uma nuvem delgada de pó evolar-se sobre os telhados. A outro bom exemplo de sincronização nos habituaram os adeptos dos seus dois clubes de futebol: o Futebol Cube Dínamo de Ölin e o Futebol Cube Spartak de Ölin. Nos dérbis, uns e outros ocupam uma metade exata do Estádio Kronos, dando-se o caso de agitarem as respetivas bandeiras e cachecóis em períodos alternativos, por ser imperioso que as suas equipas marquem alternadamente o mesmo número de golos e terminem empatadas. 

Nos dias atuais, já sem a linguagem sovietizada que enxameou as placas toponímicas e nomes dos edifícios, a sociedade ölinense vive numa prosperidade sem precedentes, dedicando-se a numerosos afazeres recreativos. Como podem dar-se a esse luxo, os cidadãos têm de si mesmos uma elevada consideração, o que poderia supor um processo histórico de afirmação pessoal. Tal é verdadeiro e falso, por paradoxal que possa parecer, porque a felicidade do eu não é alcançável aqui sem a harmonia do nós. E a harmonia não pode obter-se sem a coação e a submissão aos interesses do todo. A Democracia não é uma palavra fácil. Nas escolas, as crianças, quando questionadas pela professora meticulosa, erguem o braço direito com a precisão de uma mola hidráulica. Todas querem responder e jamais se esquecem do trabalho de casa. Não existem quadros de mérito, mas telas e pósteres alusivos aos grandes cientistas e medalhados nos jogos olímpicos que aqui nasceram, para servirem de inspiração aos mais novos. Não há maus alunos, nem alunos excecionais: só alunos excelentes! Assistir a um treino de natação sincronizada, com as alunas do Liceu Paideia, constitui um dos passatempos favoritos dos ölinenses, que as têm endeusado geração após geração. Se perguntarmos a um reformado num banco de jardim ou à senhora por trás do balcão do café o nome das celebridades da terra, não hesitarão por mais de três ou quatro segundos em citar o grande rol de campeãs, incluindo os seus feitos e a «enorme satisfação de terem honrado os seus compatriotas». Ölin para os ölinenses é com efeito uma pátria. 

Nas estradas o trânsito regula-se sem o recurso a semáforos. Usam um método semelhante ao das formigas, substituindo as feromonas por um sistema complexo de orientação via satélite que todas as viaturas têm de ter incorporado: os condutores devem utilizá-lo, comunicando antes de cada viagem ter início, tintim por tintim, os pontos geográficos a visitar. Nenhum desvio é permitido. Não há memória de quem tenha desobedecido, por ser altamente improvável alguém sentir prazer com a desobediência. 

Aliás, o prazer é outro dos tópicos regulamentados. Todos os casais conhecem bem as suas obrigações, a ponto de homem ou mulher alguma se querer antecipar ao respetivo parceiro (tal facto seria motivo de indisfarçável desconforto, mesmo que o deleite tivesse sido elevado). A palavra orgasmo num antigo dialeto local significa também concha e novelo, impondo-se ao longo dos séculos como um ato gregário e nunca individual. 

Com toda esta harmonia e ordem coletiva, está a causar espanto e comoção geral a notícia difundida já ontem à noite nas rádios e grande destaque na edição desta manhã do Correio de Ölin, esgotada rapidamente em todos os quiosques e bancas dos supermercados: «ATOR EMBRIAGADO INSULTA PLATEIA NO TEATRO JANUS!» 

Falamos do ator Béla Károlyi, que com a companhia de teatro NAP andou ano e meio em digressão internacional, regressando agora à casa-mãe com a peça Coriolano de Shakespeare. No ardor da ficção, Károlyi gritou para a plateia palavras como «A maior cegueira é a de querermos não pensar», «Todos os macacos se imitam: é nossa suprema obrigação não imitar os macacos», ou «Liberdade é coisa que todos os pássaros conhecem: porque não a conhecemos nós?». Tais palavras de ordem foram primeiro confundidas com uma magistral interpretação do general romano, que assim incitaria à revolta dos Volcos; em seguida como um exercício de exagero, e por fim como uma indesculpável provocação à plateia, que motivou a entrada da polícia, a interrupção do espetáculo e a detenção do agitador. «Queremos liberdade» berrava, enquanto o levavam algemado e escoltado, em direção ao único calabouço que foi preciso preservar por cá. Podia ler-se no final da notícia: «Estes graves acontecimentos motivaram já um pedido de desculpas formal por parte dos responsáveis da Companhia NAP, sendo intenção das nossas autoridades proceder à imediata expulsão do criminoso, que segundo pudemos apurar, não mostrou quaisquer sinais de arrependimento, antes gritando impropérios toda a noite.» Ninguém compreende a atitude de Károlyi. A família chora de desgosto, os antigos professores confessam-se aturdidos, os amigos preferem falar de outra coisa… O mais certo é ter sido o álcool. Embora não se conheçam antecedentes para tal, não deveremos preterir a hipótese de haver para tudo uma primeira vez…

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