Foto: Taliah Phoenix
Foto: Taliah Phoenix

Arrumações

Acontece-nos muito. Passamos meses ou até anos sem nos recordarmos de uma palavra, de um rosto, de uma cidade ou de uma história. Depois, de um momento para o outro, passamos a tropeçar neles vezes a toda a hora, a propósito e sem ser de propósito, por causa disto, disso e daquilo, como se uma conspiração (ou mais até uma incompreensível coincidência) nos fizesse convergir para esse pequeno retalho da memória.

Explico:

Ando em arrumações. Primeiro no computador, a organizar tudo muito direitinho em pastas e subpastas e subsubpastas; a libertar o disco rígido do peso de incontáveis ficheiros e programas que o tempo rapidamente tornou obsoletos; a fazer back-ups no disco externo. Depois no escritório, a desfazer-me de papelada, apontamentos, coisas da escola, velhos cadernos de viagem, bilhetes de avião, ingressos em museus… Por fim, nas gavetas do quarto, da cómoda, da escrivaninha, da mesinha de cabeceira. E isto porque (penso ser legítimo afirmá-lo) se impõe ao impulso protetor um outro impulso, o de apagar, silenciar, reduzir o nosso espaço outra vez à metáfora da folha em branco.

É um exercício temerário! Talvez até um pouco insano.

Conservamos um objeto, guardamo-lo por amor ou comodidade durante tanto tempo que não somos capazes de dizer quanto tempo, e depois (subitamente) decretamos a sua condenação.

Foi o que fiz. É o que tenho feito. Duas ou três vezes por ano, ensaco tudo, reordeno tudo, limpo tudo. É uma tarefa de gabinete, na qual me concentro até meio da madrugada, sem que o sono ou o cansaço possam disputar-me à avidez da missão acabada. Devo sentir o mesmo que sentiu a Bruxa na história da Branca de Neve, quando se fechou para fabricar a ambígua maçã. Porque o que sobra ao cabo de todas essas horas de afã é um paradoxo: mexer no passado para o destruir é reacordá-lo!

Acontece muito. Esbarrar com a fibra calosa dessas memórias pode sufocar-nos. Passamos meses ou até anos sem nos recordarmos de uma palavra, de um rosto, de uma cidade ou de uma história. Mas de um momento para o outro somos engolidos pelo turbilhão de afetos mal adormecidos, mal poisados, mal esquecidos…

«Delubro», por exemplo. Usei essa palavra quase num sussurro, num poema algures, quando de pés descalços e deitados na relva dos jardins das Tulherias nos entregávamos a uma sesta. E tu sonolenta perguntaste o que é «delubro». E eu já de olhos fechados respondi «La Madeleine é um delubro». Porque certas palavras encaixam como uma luva em imagens que não dispunham de uma que as descrevesse na perfeição. E depois dela, não há senão essa palavra…

Lendo Borges, «delubro» regressou num poema, e com ele regressou Paris, com todas as suas ruas e ricas lojas de esquina, com todos os seus cafés e livrarias, com o seu cheiro de algas e castanheiros-da-índia, com todos os seus edifícios altos e antigos, com todos os seus pores-do-sol e deambulações entre Notre-Dame e os Champs-Élysées nas tardes quentes do verão. Porque Borges descreve a cidade como eu a descrevo, como se o tivesse lido antes de conhecer Paris.

Pura magia intuitiva…

Conservamos um objeto, uma recordação, um farrapo de magia. Guardamo-lo por amor ou comodidade durante tanto tempo que não somos capazes de dizer porque o fazemos, mesmo quando o bolor e a amarelidão tornam moles a sua estrutura e baça a sua luz. Porque o amor (como a memória, como a maçã que a Bruxa entregou a Branca de Neve) é um estranho fenómeno de dupla face, que ora nos mata, ora nos suplica que o matemos nós.

No fundo, somos apenas animais esquisitos.

E é por essa razão, e não por qualquer outra, que precisamos de arrumar sempre tudo o que acumulamos (e acumulamos sempre demasiado). E é por essa razão, e por nenhuma outra, que nos sabe sempre melhor um duche com água a ferver no fim das arrumações, mesmo que ao raiar do sol, mesmo que finalmente vencidos pela fadiga, por uma palavra, por um rosto, por uma cidade, por uma história que acabámos de apagar.

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